Receptores de defesa podem virar porta de entrada: estudo revela nova via de infecção do SARS-CoV-2 em células B
Conduzida por pesquisadores da (UCLA) e de outras instituições norte-americanas, a pesquisa demonstra que certos receptores de células B — conhecidos como BCRs (B cell receptors) — podem mediar a ligação, a fusão e a infecção produtiva do vírus.

Domínio público
Um dos pilares da resposta imune humana — os linfócitos B, responsáveis pela produção de anticorpos — pode, em circunstâncias específicas, ser explorado pelo próprio vírus que deveria combater. É o que aponta um estudo publicado nesta semana na revista PLOS Pathogens, que descreve um mecanismo até então desconhecido de entrada do SARS-CoV-2 em células do sistema imune, independente do receptor ACE2, considerado a principal porta de acesso do coronavírus às células humanas.
Conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e de outras instituições norte-americanas, a pesquisa demonstra que certos receptores de células B — conhecidos como BCRs (B cell receptors) — podem mediar a ligação, a fusão e a infecção produtiva do vírus. Em outras palavras, estruturas criadas para reconhecer o invasor podem, paradoxalmente, funcionar como um atalho para sua entrada.
“Descobrimos que receptores de células B que reconhecem a proteína Spike do SARS-CoV-2 são capazes de permitir a infecção mesmo na ausência do ACE2”, afirma Kouki Morizono, professor da UCLA e autor sênior do estudo. “Isso revela uma via alternativa e inesperada de interação entre o vírus e o sistema imune”.
Uma mudança de paradigma
Desde o início da pandemia, em 2020, o ACE2 se consolidou como o elemento central para explicar a disseminação do SARS-CoV-2 no organismo. Presente em células do trato respiratório, do intestino e de outros tecidos, o receptor é essencial para a ativação da proteína Spike e a fusão viral. O novo trabalho, porém, mostra que esse modelo não é universal.

Figura. O BCR anti-ZIKV medeia a infecção por ZIKV in vitro.
Função do receptor de células B na entrada do vírus: os receptores de células B anti-SARS-CoV-2 podem mediar a entrada viral por um mecanismo independente de ACE2. Rene Larios MD Belal Hossain ... Kouki Morizono
Em experimentos in vitro e com vírus replicantes, os pesquisadores observaram que BCRs derivados de anticorpos neutralizantes — como REGN10933 e CB6, já estudados no contexto de terapias contra a Covid-19 — permitem que o vírus infecte células B mesmo quando o ACE2 é bloqueado ou ausente. A infecção depende, ainda assim, da clivagem da Spike por enzimas celulares, como a catepsina L, o que indica um processo biologicamente ativo e não um simples artefato experimental.
“Não se trata apenas de ligação do vírus à superfície da célula, mas de uma infecção completa, com produção de novas partículas virais”, explica Vaithilingaraja Arumugaswami, coautor do estudo.
Lições de outros vírus
A hipótese de que vírus possam explorar receptores imunes não é totalmente nova. Estudos anteriores já haviam mostrado que flavivírus, como dengue e zika, conseguem infectar células B ao se ligarem a BCRs específicos. O que surpreendeu os cientistas foi observar comportamento semelhante em um vírus com mecanismos de entrada mais complexos, como o SARS-CoV-2 — algo que não ocorreu, por exemplo, com o HIV-1, também analisado no estudo.
Enquanto BCRs contra o HIV facilitaram a ligação viral, mas não a infecção, no caso do coronavírus o processo se completou. “Isso indica que a capacidade de usar receptores de células B não é universal, mas depende da estrutura e da dinâmica da proteína de envelope de cada vírus”, afirma Morizono.
Os autores ressaltam que os achados não significam que vacinas ou anticorpos terapêuticos facilitem a infecção em pessoas saudáveis. O fenômeno foi observado em condições experimentais controladas, envolvendo expressão específica de receptores. Ainda assim, o estudo levanta questões relevantes sobre a interação entre o SARS-CoV-2 e o sistema imune, especialmente em contextos de infecção persistente ou respostas imunes disfuncionais.
Do ponto de vista clínico, a descoberta pode ajudar a explicar por que fragmentos virais são ocasionalmente detectados em células B de pacientes com Covid-19, algo relatado em estudos anteriores, mas nunca plenamente compreendido. Também abre novas frentes de investigação sobre como preservar a integridade das células responsáveis pela memória imunológica.
“Entender essas vias alternativas é essencial para antecipar efeitos de longo prazo da infecção e para projetar estratégias terapêuticas mais seguras”
Christina Ramirez, bioestatística da UCLA e coautora do artigo.
Os pesquisadores defendem cautela na interpretação dos resultados e destacam a necessidade de estudos em modelos animais e em amostras clínicas humanas. Ainda assim, o trabalho amplia o mapa conhecido da infecção pelo SARS-CoV-2 e reforça uma lição recorrente na história das epidemias: quanto mais se investiga um vírus, mais complexa se revela sua relação com o hospedeiro.
Publicado em 6 de fevereiro de 2026, o estudo foi financiado por agências como o National Institutes of Health (NIH) e o California Institute for Regenerative Medicine e está disponível em acesso aberto.
Referência
Larios R, Hossain MB, Brown R, Jeyachandran AV, Abu AE, Zaiss AK, et al. (2026) Função do receptor de células B na entrada do vírus: receptores de células B anti-SARS-CoV-2 podem mediar a entrada viral por um mecanismo independente de ACE2. PLoS Pathog 22(2): e1013946. https://doi.org/10.1371/journal.ppat.1013946